Filho único: problema ou solução?

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Antes de ter filhos, a jornalista norte-americana Lauren Sandler, 39 anos e casada há 11, dizia-se convicta sobre os benefícios de ser a única criança da casa. Surpreendentemente, quando engravidou de uma menina, Dahlia, hoje com 5 anos, perdeu certezas e ganhou dúvidas: será que minha filha será solitária e mimada semirmãos? Vou prejudicar o desenvolvimento dela se não tiver uma segunda criança? Diante dessas questões, a própria vivência parecia não dar conta de tanta aflição e ela partiu para os estudos científicos. Passou três anos lendo teses e livros sobre o assunto, viajou para países como China, Japão, Áustria, Alemanha, França e Itália para entrevistar especialistas (psicólogos, sociólogos, historiadores e demógrafos) e conviveu comfamílias nessa situação para checar se o que a literatura indicava fazia sentido na prática. Tudo isso resultou no livro Primeiro e Único, lançado no Brasil no início de maio pela Editora LeYa (R$ 29,90). Em entrevista exclusiva à CRESCER, Lauren contou o que descobriu. Acompanhe:

CRESCER: Ao escrever o livro, você encontrou as respostas que procurava?
Lauren Sandler: Encontrei dados bem interessantes que contradizem o senso comum. Um dos principais é: o estereótipo de que o filho único é solitário, egocentrado e que tem dificuldade para se adaptar socialmente persiste apesar de centenas de estudos negando isso. Os autores afirmam que crianças podem apresentar essas características independentemente de ter ou não irmãos. Os acadêmicos que estudam isso há mais de um século já derrubaram esse mito. Mas essa “atualização” não chegou à vida cotidiana. As pessoas continuam considerando as ideias antigas sobre o filho único para tomarem decisões importantes sobre a própria vida.

C.: Mas a revolução industrial mudou completamente isso, não?
L.S.: Sim, filhos passaram a significar mais gastos do que ganhos, em termos financeiros, e, então, as famílias foram diminuindo. A mulher passou a participar do mercado de trabalho, a ter direitos e poderes. Tem o desejo de ser mais do que mãe, quer ter uma carreira, manter sua liberdade e construir uma vida feliz, mas isso ainda é mais um tabu. Honestamente, acredito que, apesar de a mulher ser independente na prática, emocionalmente a sociedade não lida bem com a ideia de ela ser livre. Há um senso comum silencioso que acredita que mais do que ser profissional, cidadã e esposa, ela precisa ser mãe! Por isso, deve ter vários filhos, fazendo-a ter uma atenção muito focada na vida doméstica. Assim, continuamos a propagar lendas coerentes com esse contexto psicológico, como a de que ter um filho só é ruim.

C.: Isso casa com a afirmação que você faz no livro sobre felicidade feminina?
L.S.: Sim, acredito que para ser uma boa mãe, primeiro, você precisa ser uma pessoa feliz. Assim, é mais fácil educar e lidar como dia a dia da criança. Foi isso que me fez decidir se eu teria ou não mais filhos e foi esse mesmo “norte” que minha mãe usou para definir que não teria mais bebês.

C.: Apesar das pesquisas indicarem o contrário, por que sobrevive a ideia de que ter só um filho é algo negativo?
L.S.: Há muitas explicações para isso, e elas nos remetem aos primórdios. O ser humano teve que se multiplicar amplamente para garantir a sobrevivência na Terra. Era condição para manter a espécie. Depois, nas sociedades agrárias, tinha-se muitos filhos como força de trabalho. Mais filhos, mais produção, o que aumentava as chances de uma vida bem-sucedida.

C.: Depois de tanta pesquisa, você acha que crianças sem irmãos são individualistas e mimadas?
L.S.: Os estudos científicos não relacionam esses dois aspectos. Até porque a escola de hoje é uma importante equalizadora, que coloca todos num mesmo patamar, estimula a troca e o convívio igualitário, reprimindo atitudes que beneficiam apenas um. Quanto a ser mimado, dependerá mais do comportamento dos pais do que da circunstância da criança. Quando eles tendem a ter essa atitude, podem mimar um, dois ou três filhos. Se não têm essa postura, também não terão com um filho só. Para a criança, há vários caminhos para aprender as mesmas coisas. Você exercita a generosidade, por exemplo, com irmãos, primos, amigos ou colegas de classe. Não há formas melhores ou piores, há maneiras diferentes. Isso é normal na trajetória de desenvolvimento de qualquer um.

C.: No livro, você também diz que ser a única criança da casa é uma maneira poderosa de crescer. O que isso significa?
L.S.: Digo poderosa no sentido de intensa. Não há distrações, você é foco único. Seus pais acompanham seu crescimento muito de perto. E você também acaba observando a trajetória dos pais com mais proximidade. Isso amplifica as vivências, no sentido de que, se você aproveitar, pode aprender mais, ter um repertório mais aprofundado.

C.: Muitos pais decidem ir para a segunda gestação alegando que, quando eles se forem, não querem que os filhos enfrentem essa dor sozinhos. O que você acha?
L.S.: Sim, a questão da morte dos pais é um aspecto pesado para qualquer filho único, não há como negar. Porém, deve-se avaliar que ter irmãos não é garantia para nada. Você pode construir um vínculo saudável e de apoio com eles ou ter uma relação destrutiva e pouco acolhedora. Não dá para prever. Na falta dos pais, ter ou não irmãos interfere na vivência da dor, mas é apenas uma parte dessa experiência e não ela inteira.

C.: Sua filha pede para ter irmãos?
L.S.: Sim. E é difícil, não vou mentir. Acho que ela seria uma ótima irmã mais velha. Mas conversamos sempre sobre como nossas vidas mudariam e como somos felizes assim, então, por que mudar? Ela preza muito o nosso trio especial. E é uma criança extremamente feliz – por isso, não me preocupo, sei que é uma fase.

C.: Você sentia falta de ter irmãos quando era criança? Acha que teria sido mais feliz?
L.S.: Não senti falta até chegar à adolescência. Isso porque esse já é um período em que nos sentimos sozinhos e é difícil não ter com quem dividir as aflições em casa. No entanto, tive uma vida muito feliz, com bastante independência e uma relação muito próxima com meus pais. Cada escolha tem suas desvantagens, nada é perfeito. Mas essa funcionou maravilhosamente para mim.

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Sobre danipeternel

A mãe mais felizzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz :) "Três coisas agradeço a Deus todos os dias de minha vida:o ter-me permitido o conhecimento de sua obra,o haver acendido a lâmpada da fé na minha treva material e o ter-me dado outra vida a esperar depois desta". (Frei Anselmo)

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