Arquivo mensal: dezembro 2013

A neurociência do desenvolvimento infantil aplicada à educação.

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“A gente aprende o que [a gente] faz. A gente melhora naquilo que a gente faz. Se você quer promover o desenvolvimento cognitivo, precisa dar oportunidades de a criança usar as suas habilidades cognitivas”, afirma a neurocientista Suzana Herculano-Houzel. A pesquisadora concedeu entrevista à Gestão Educacional durante um dos encontros regionais de atualização para professores e coordena­dores da educação infantil e do ensino fundamental I, promovidos pelo Sistema Etapa, em São Paulo, no mês de setembro. Suzana foi uma das palestrantes do evento e falou sobre a neurociência do desenvolvimento infantil aplicada à escola (para crianças de zero a dez anos).

As características do amadurecimento emocional e saudável do cérebro e a ligação desse processo com o aprendizado estão entre os temas abordados por Suzana, que é autora do livro O cérebro em transformação (Ed. Objetiva), entre outros, colunista da Folha de S. Paulo e conhecida pela série Neurológica, exibida no Fantástico. A neurocientista também dirige o Laboratório de Neuroanatomia Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Acompanhe a entrevista.

Gestão Educacional: Você fala a respeito da neurociência do desenvolvimento infantil aplicada à escola e voltada às crianças de zero a dez anos. Por que o recorte nessa faixa etária?

Suzana Herculano-Houzel: De zero a dez anos é o período da infância. Daí em diante é a adolescência, [fase em que] começa uma segunda onda de transformações no cérebro. Anteriormente, acreditava-se que o período importante de motivações no cérebro e da formação deste na infância seria de zero a três anos. Hoje, sabemos que esse período é muito mais longo. Durante toda a infância, há modificações no cérebro, mas ainda assim acreditava-se que aos dez anos essas modificações estariam terminadas e o cérebro estaria pronto. Hoje, a neurociência mostra que não é assim. Primeiro porque as transformações do período da infância, de desenvolvimento do cérebro mesmo, duram toda a infância, ou seja, até os dez, onze anos de idade. Mesmo assim, quando se chega a essa idade, o cérebro ainda não está pronto, vem uma segunda onda de transformações, que são responsáveis pelo comportamento adolescente. Essa divisão faz sentido em termos de desenvolvimento e de aplicação para a educação. Além disso, [a neurociência e o desenvolvimento infantil] são dois assuntos complementares que eu abordo em palestras diferentes nas escolas.

Gestão Educacional: Em que as descobertas sobre o desenvolvimento do cérebro podem contribuir para a educação?

Suzana: Toda vez que você entende melhor o assunto de que trata e com o qual lida na prática, o seu resultado é muito melhor, não só em relação ao desempenho efetivo e bem-estar de professores e alunos, mas também em relação ao aprendizado das várias interações na escola. É claro que você pode ser professor sem saber um pingo de neurociência e descobrir na prática temas e recomendações que a gente pode chegar a dar com a neurociência. Mas juntar forças é extraordinário. Quando se descobre que outras pessoas tratam do mesmo assunto que você, mas de maneiras complementares, ganha-se muito mais informação sobre o que se está fazendo. [O professor] consegue entender melhor “porque funciona melhor quando faço assim na escola com meus alunos”. E isso gera não só resultados melhores e satisfação para todo mundo, mas também aprendizado melhor, que é o que a gente quer na escola.

Gestão Educacional: De que forma os professores podem se aprofundar nessa questão?

Suzana: Há alguns cursos de atualização que oferecem esse tipo de conteúdo. A literatura em inglês já está muito mais avançada. Aqui no Brasil ainda há pouca coisa a respeito. Eu estou preparando um livro especificamente sobre a neurociência voltada à aplicação na escola. A neurociência do aprendizado e do desenvolvimento infantil e de adolescentes.

Gestão Educacional: A literatura nessa área, no Brasil, ainda é escassa. E os estudos?

Suzana: Há pouca literatura disponível no Brasil. Os estudos também são poucos. A neurociência tem avançado enormemente nessas áreas relevantes do aprendizado, da atenção, da importância da motivação, do próprio desenvolvimento cognitivo e emocional, mas esse tipo de pesquisa, em geral, não é feito no ambiente escolar ou especificamente voltado aos alunos, aos professores ou a essa interação. É o que a gente chama de pesquisa bem básica mesmo, mas o assunto é tão fácil de relacionar com o que acontece no ambiente escolar que, mesmo dessas pesquisas que não são feitas exatamente com professores e alunos, os resultados são diretamente aplicáveis.

Gestão Educacional: Quais são os países que têm pesquisas mais desenvolvidas nessa área, especificamente na escola?

Suzana: Onde eu vejo mais [pesquisa nessa área] é nos Estados Unidos e no Reino Unido. O Reino Unido tem uma preocupação grande em fazer essa aplicação da neurociência ao sistema escolar.

Gestão Educacional: Quais as mudanças mais expressivas no cérebro da criança até os dez anos de idade? E o que elas representam para o processo de aprendizado?

Suzana: A criança até os dez anos está aprendendo essencialmente tudo. Ela está aprendendo não só a lidar com o mundo, mas, antes disso, a lidar com ela mesma. O cérebro dela está em formação biológica anatômica, mas é importante reconhecer que essa formação biológica se dá de acordo com o contexto ambiental que você tem ao redor. É por isso que a família, a escola, a interação pessoal com os professores e com os colegas na escola são fundamentais, porque guiam essa formação do cérebro na infância. A biologia é fundamental, mas não é só ela que determina quem você se torna no final da infância. É a combinação das duas coisas.

Gestão Educacional: Como promover, de forma adequada, o desenvolvimento cognitivo da criança?

Suzana: A gente aprende o que [a gente] faz. A gente melhora naquilo que a gente faz. Então se você quer promover o desenvolvimento cognitivo, você precisa dar oportunidades de a criança usar as suas habilidades cognitivas. E aqui também não há fórmula mágica, você precisa de riquezas de atividades, de oportunidades para fazer coisas diferentes, de demandas diferentes, de desafios diferentes. Essa riqueza de estímulos é importante, mas é riqueza no sentido de variedade e, sobretudo, riqueza de oportunidades de interagir com estímulos que façam sentido para você. Não quer dizer, de maneira alguma, por exemplo, que hoje a criança vai ficar na sala ouvindo ao fundo mandarim e amanhã ela vai ficar ouvindo alemão e cantigas de roda em russo, que não fazem o menor sentido para ela. Isso é estimulação? É estimulação ruim, é ruído que não acrescenta nada para a criança. A criança não tem como manipular aquilo, não tem como usar aquela informação de maneira coerente, de maneira de fato produtiva. Dar estímulos não quer dizer simplesmente soltar a criança em um mar de ruídos de todas as formas. Quer dizer oferecer condições de interação real com coisas diferentes, possibilidades de resolver problemas dos tipos mais diferentes possíveis. Bem mais interessante é oferecer situações para a criança se pôr à prova de uma maneira que seja agradável e que atraia a sua atenção.

Gestão Educacional: Como o cérebro trabalha durante o aprendizado da leitura e da escrita? Qual a importância das experiências para o desenvolvimento cognitivo e, em particular, o da linguagem?

Suzana: A linguagem é um exemplo em particular dessa interação necessária entre a biologia e o ambiente. Nosso cérebro nasce capaz de aprender qualquer língua que ele possa produzir. Você não precisa saber onde vai nascer; sua mãe pode mudar de país dois dias antes de você nascer e está tudo bem, você é capaz de aprender a língua daquele país novo. Mas a compreensão, a produção da linguagem e a capacidade de você expressar essa linguagem em rabisquinhos, que é essencialmente o que a escrita é, dependem do seu cérebro ter as bases biológicas prontas para isso, o que não acontece imediatamente. Existe um tempo normal de desenvolvimento, que geralmente é diferente para cada criança. Quando o cérebro atinge a maturidade necessária suficiente para começar a compreender a linguagem, produzir movimentos específicos das palavras que têm um determinado significado e associar o significado daqueles sons aos rabisquinhos das letras da língua escrita é que a influência do ambiente é fundamental. É aí que essa oportunidade de resolver problemas, de usar essas capacidades biológicas recém-formadas para lidar com o mundo, para usar a linguagem para lidar com o mundo, é fundamental para que o aprendizado de fato aconteça. Mas lembrar que esse aprendizado depende de uma fundação biológica que talvez não esteja lá no mesmo tempo para todas as crianças é a primeira base fundamental para você saber o que esperar de crianças diferentes. Ao mesmo tempo, é preciso saber que a gente fica apenas tão bom quanto a gente pratica; não dá para esperar que a criança exposta a uma linguagem pobre em casa, que não recebe uma demanda na escola ou oportunidades de melhorar o seu vocabulário, [tenha completo] o seu domínio de sintaxe. Se você não tem oportunidade de colocar as suas capacidades biológicas cognitivas à prova pelo seu ambiente, é claro que você não vai desenvolver essas capacidades. Aí é que a gente reconhece a importância da escola oferecer esse ambiente de desafios saudáveis.

Gestão Educacional: A neurociência descobriu que o cérebro tem um sistema especializado em detectar carícias. O carinho é importante para o desenvolvimento da criança?

Suzana: É fundamental, porque o carinho é esse toque com certa pressão, com certo movimento em partes grandes do corpo, de uma vez só, que é o sinal inequívoco para o cérebro de que a criança não está sozinha no mundo. A falta do carinho é sinal, para o cérebro, de que você está abandonado, não tem quem cuide de você, não tem quem dê atenção, não tem quem te guie e te oriente pelo mundo. Na ausência de carinho, a resposta do cérebro, mesmo que veja outras pessoas ao redor, é tocar todos os alarmes, desligar tudo o que não é essencial e simplesmente sobreviver. Ele entra em um modo de resposta ao estresse que, quando se torna crônico, tem uma série de consequências para a saúde. Quando isso acontece na criança, o cérebro se molda de acordo com aquela realidade. O cérebro da criança que cresce em um ambiente que não tem carinho entende “estou abandonada, tenho de me virar sozinha”. Essa criança se torna um adulto cujo cérebro aprendeu a sempre esperar o pior de todas as situações.

Gestão Educacional: Como se define a sobrevivência nesse caso?

Suzana: É o se virar sozinho em todos os aspectos, desde gastar pouca energia até crescer o menos possível; você vê crianças que têm estatura menor, inclusive com repercussões para a saúde cardiovascular e para a saúde mental. A própria criança vive em um estado de angústia, de ansiedade, sempre espera o pior das situações. Assim, ela acaba se tornando um adulto que também espera o pior das situações. Ela está sempre preparada a tratar qualquer problema como uma catástrofe eminente, que é uma resposta completamente diferente da criança que recebeu carinho, apoio, que aprendeu a lidar com os problemas do mundo como apenas pequenas situações a resolver, que tem uma atitude muito mais saudável justamente graças a esse apoio social que ela recebia e do qual o carinho é a evidência maior.

Gestão Educacional: Como as brincadeiras infantis devem ser encaradas no processo de aprendizagem da criança?

Suzana: A brincadeira é o palco para a experimentação. É a oportunidade pura de se testar, na prática, as habilidades cognitivas, como se interage com as outras pessoas emocionalmente, que resultados as suas ações têm sobre os outros, como você interage com os outros. Brincadeira é oportunidade desde a mais simples experimentação sensório-motora até você ter as brincadeiras de enganar o outro, dentro de um jogo que é experimentação social e emocional. Brincadeiras como o jogo Detetive, em que é preciso solucionar um assassinato e você tem de intuir quem está com medo, enganando, tudo isso são oportunidades fabulosas de aprendizado. Você tem de aprender a identificar e a seguir regras, o que não é nada demais, é apenas a maneira de funcionarmos em sociedade. A brincadeira dá a oportunidade de aprender a conviver com essas regras, testar as suas capacidades e seus limites e testar essas regras de convívio social. São fundamentais o jogo e a brincadeira, não só para as crianças, mas para todo mundo.

Gestão Educacional: Em situações de conflito na escola, o professor, em vez de apenas dizer “não”, também deve ser positivo e sugerir às crianças outras opções para despertar seu interesse?

Suzana: Dizer “não” não resolve nada. A única função que o não cumpre é a de sinalizar o erro, mas só sinalizá-lo não resolve se você não fornecer uma alternativa de lidar com aquela situação, de resolver o problema em todos os sentidos: desde a maneira correta de se escrever uma letra até resolver conflitos com os colegas. A primeira coisa que o professor e a escola têm de reconhecer é que a função deles é dar alternativa. Não é simplesmente punir, dizer “não é assim que se faz”. É preciso mostrar como se faz. A criança não tem a menor obrigação de saber qual é a maneira correta de fazer algo. É o adulto, o professor e a escola que têm de fazer isso. Dar alternativa é fundamental, abrir esse leque de possibilidades melhores e mais saudáveis para os alunos, mas também e, sobretudo, dar o exemplo. É mostrar por meio de suas próprias ações como se faz. Isso tanto para a parte cognitiva, digamos racional, dos problemas do comportamento quanto para a parte emocional. É mostrar também como lidar com problemas dos mais variados. As crianças fazem o que elas veem os outros fazerem.

Entrevista publicada na edição de dezembro de 2013.

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Seu filho precisa de tanto para ser feliz?

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No meu tempo de criança, os pais eram pessoas esforçadas pelo sustento da família. Com ostentação ou sem, as pessoas eram mais preocupadas com o trabalho do que com ser feliz. Talvez por isso, já que filhos querem sempre fazer tudo diferente dos pais, agora todo mundo quer fazer o filho feliz, acima de tudo. Isso explica os valores escandalosos que se paga hoje em dia por uma festa de aniversário, a quantidade de brinquedos que as crianças têm e o número enorme de brasileiros indo para a Disney, às vezes para passar o final de semana. Claro que existe a culpa de muitos pais que trabalham demais e tentam compensar os filhos de alguma forma. Mas reflexo da culpa ou não, as crianças de agora nasceram para ser felizes. Será que está certo isso?

Vamos lembrar da nossa infância. Eu pelo menos, era muito feliz. Brincando com minha amiga que morava na casa ao lado, passávamos horas penteando o cabelo uma da outra, ou fazendo comidinha com as plantas do jardim. A maior aventura de que me recordo era brincar de pega-pega com o meu cachorro. Muito básico para você? Acontece que meu cachorro se transformava em uma onça que na verdade era uma Medusa, então em um simples olhar, ele poderia nos transformar em pedras. Por isso estávamos sempre equipadas com frascos vazios de shampoo cheios de água que explodiam como granadas quando caiam no chão. Pois é, criança vem com imaginação de berço. Por isso não precisa ir até Orlando ver os espetáculos de fogos de artifício para ficar maravilhada. Aliás, cá entre nós, já estive na Disney 3 vezes (2 em Orlando e 1 em Paris) e nunca vi tanta criança triste em um parque. Chorando, cansadas, angustiadas, com as mães e os familiares estressados. Claro, já viu o tamanho do lugar? E a quantidade de informação? E de sorrisos maquiados, brilhos, alegria explosiva? Gente, somos humanos. Isso não é um filme. É vida real. Não somos super heróis, nem princesas. Seu filho vai comer aquela salsicha processada junto com aquele pão velho de uma lanchonete linda com várias coisas girando, e pode ser que passe mal. E ai? Não! Não pode passar mal na Disney. Tem que curtir. Tem que ser feliz.

Eu trabalhei para a Disney traduzindo todos os materiais para português durante 4 anos. Sou encantada com a empresa e com o negócio em si, gosto de ir porque moro a 300 quilômetros de distância, temos o passe anual então é um programa barato em um lugar super organizado e bonito na maioria das vezes. Só estou usando de exemplo porque sei que é uma viagem muito cara para se fazer do Brasil mas isso não está impedindo cada vez mais brasileiros de fazerem. Minha pergunta usando este exemplo é: será que precisamos fazer tanto pelos nossos filhos? (Viagem de 8 horas de avião, filas intermináveis, kilômetros e mais kilômetros de parque de diversão) Eu suponho que não. E que está errado os pais sentirem que são responsáveis por fazer dos filhos, pessoas felizes. De onde tiramos essa ideia maluca?

O que eles precisam na verdade é de adultos para educá-los. E como adultos é claro que estamos ocupados. Com a família, com o trabalho, com as funções da casa. Se nessa lista se somar “a felicidade do(s) meu(s) filho(s)” alguém vai ficar muito sobrecarregado e frustado. Talvez seu filho, talvez você, talvez todo mundo. É chato tentar e não conseguir. Já pensou como sente os pais que pagaram a viagem em 6 vezes, passaram 8 horas na lata de sardinha, mais 1 hora em um brinquedo se o filho sair do brinquedo chorando?

Uma vez eu li o livro Encantador de Cães e fiquei fascinada com o raciocínio simples que o genial Cesar Millan escreve ali. Ele diz que cães só vão obedecer quem eles respeitam. E para ganhar respeito, é preciso ser a autoridade, é preciso colocar ordem antes do amor. Agora tente trocar a palavra “cães” por “filhos”, dá no mesmo. Autoridade é o contrário de democracia. Os pais não podem estar sempre abertos “o que querem comer, o que vamos fazer hoje, onde vamos passar as férias”. Entende como é complicado para a criança ouvir isso? Sentir que não existe uma ordem. Ela no auge dos seus 4 anos (ou por volta disso) é que precisa saber, querer e lidar com seus desejos. Meu Deus, está tudo errado ai. No meu tempo de criança, minha mãe interrompia a brincadeira trazendo uma bandeja com uma limonada fresca e biscoitos Maria. Sempre que lembro dessa cena (que aconteceu várias vezes) ela aparece iluminada como uma fada. O que eu sentia era: Nossa, ela é mágica! Como ela sabe que estamos com fome e com sede? Teria sido bem diferente se ela tivesse aparecido e perguntado: querem lanchar? vão querer sorvete ou pode ser biscoito mesmo? Estava pensando em fazer uma limonada, vocês vão beber? Ou é melhor eu trazer um suco de uva?

Infelizmente não estou escrevendo isso porque já aprendi a lição depois de ler o livro. Estou tentando aprender. E só estou escrevendo sobre isso porque descobri que tenho errado bastante. Desde que nos mudamos para Miami, fico com pena e compaixão por qualquer expressão de sofrimento que meus filhos tenham. Porque sei que é difícil para eles. E até esqueço que é difícil também para mim. Minha vida mudou completamente. Mas nem lembro disso. Só penso neles. A consequência? Minha filha de 4 anos cada dia faz uma coisa para me irritar. E então percebi que ela está fazendo isso porque eu estou irritando ela. E porque? Porque estou aberta todos os dias para ouvir, para entender o lado dela. Não parece errado à princípio, certo? Mas está errado. Criança precisa de adulto, alguém que tenha um norte, e ela acompanha o caminho, se frustando, entendendo seus limites e entendendo, porque não, que a vida não é um parque de diversões cheio de pessoas fantasiadas sorrindo para você o dia todo. A vida é para evoluir. Vamos tentar evoluir como pais antes que eles cresçam. Já pensou como deve ser frustante a adolescência de uma criança que sempre teve uma, duas, ou mais pessoas prontas a atender seus pedidos? Como deve ser difícil perder para um adulto que passou a infância sempre ganhando? Nem que a custa de 12 sofridas prestações para os pais?

Educar dá mais trabalho do que servir o sorvete antes do jantar, já que seu filho está querendo tanto. Educar envolve mais compromisso do que pagar as 6 parcelas da viagem mágica. Educar é coisa de gente grande. Deve ser por isso que crianças não podem ter filhos. Porque filhos precisam de adultos. Parece que esse é o grande problema da minha geração, não queremos ser adultos. Outro dia vi um post sobre a crise dos 25 anos. Levei o maior susto! A maioria das pessoas que conheço estão nessa crise aos 35 (ou mais). Está na hora de dar esse passo. Parar de focar só na diversão e na felicidade e evoluir, amadurecer. Todo grande passo na vida acontece quando a gente faz aquilo que é desconfortável. Já aprendemos muito sobre diversão e entretenimento, que tal agora aprender a viver?

Por Cris Leão

Ter filhos é uma droga…

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Existe um lugar comum que define a chegada de filhos na vida de um casal como um momento de “careteamento”, quando os novos pais deixam as loucuras do passado pra trás, tornando-se mais sérios e responsáveis. Qualquer um que tenha filhos sabe que isso é uma bobagem. A grande verdade, que ninguém diz porque iria constranger cidadãos de bem, é que filhos transformam os pais em dependentes químicos, em junkies, em verdadeiros alucinados.

Filho é um vício, uma viagem sem volta, um fator de altíssima dependência que causa todo tipo de efeito colateral. Isso é especialmente visível nos primeiros meses de vida do bebê. Olhe para pais recentes: olheiras profundas, cara de acabados, explosões de mau humor, alienação da vida social, total desinteresse por outros assuntos que não o seu pequeno e completo desprezo pelas normas sociais no jeito como se vestem. Nessa época, os pais sofrem de privação de sono, paranóia (“será que ele tá respirando? será que vou conseguir ensinar alguma coisa pra ela?”) e indícios de transtornos obsessivos (“ferver a água duas vezes é suficiente?”). O fato de se cercarem de objetos e roupinhas coloridas com animais falantes e personagens infantis mesmo quando os filhos não conseguem distinguir direito formas e cores mostra a extensão do seu descolamento da realidade. É um espetáculo grotesco.

Com os bebês crescendo, o comportamento desajustado continua e se aprofunda. Os pais acham normal andar vomitados por aí, cantar a plenos pulmões músicas sobre sapos que não lavam o pé, dançar em momentos inadequados e falar sem parar durante horas (sobre os filhos). Ficam em rodinhas nas quais só são aceitos os parceiros de vício e as conversas são recheadas de códigos próprios. Compartilham visões lisérgicas de brinquedos que falam, dinossauros roxos, cachorros vermelhos gigantes, turmas de animais aventureiros, mundos alternativos que só fazem sentido para os junkies com quem andam. Os que não estão na mesma pilha são vistos com desdém. Casais sem filhos, especialmente, costumam ser tratados como seres inferiores. Aliás, o delírio de grandeza de quem tem o vício dos filhos toma ares místicos. É comum você ver pais beijando machucados de filhos como se tivessem poder de cura e assoprando alimentos sujos como se o seu sopro fosse purificador. Mas a euforia não dura o tempo inteiro. Quando não estão com as crianças, os viciados se jogam em sofás num estado de pura letargia, abrindo mão de projetos que antes os entusiasmavam e que faziam deles membros produtivos da sociedade. Agora eles vivem apenas para alimentar e fazer crescer seu vício.

Como toda droga, os filhos tem seu efeito mais potente nos primeiros dias de uso. Os pais de um recém nascido tem os olhos vidrados, um discurso riponga de paz e amor, e o depoimento constante de que tudo está diferente, mais brilhante. Com o tempo, é preciso drogas mais pesadas e complexas para sustentar esse barato. Demora para que os pais encontrem algo à altura dos filhos e que cause tamanho prazer depois de tantas experiências intensas ao longo dos anos. Mas as autoridades sabem que todo pai e toda mãe, após duas ou três décadas de uso de filhos, vive em busca de repetir o prazer da primeira viagem e logo logo acabam caindo nas garras de uma outra droga, ainda mais pesada, que faz pessoas experientes agirem de maneira ainda mais abestalhada e inconsequente. Você já deve ter ouvido falar por aí. Chama-se “netos”.

*** Fonte: Blog Conector